A perda de encanto pela vida talvez seja uma das dores mais discretas da experiência humana.

Quantas vezes a gente segue a vida em plena produtividade… Trabalha, cuida da casa, responde mensagens, cumpre compromissos. Do lado de fora, a vida segue. Mas por dentro, algo foi ficando cinza.

A perda de encanto pela vida talvez seja uma das dores mais discretas da experiência humana, porque quase ninguém sabe nomeá-la. As pessoas costumam chamar isso de cansaço, estresse, rotina, falta de motivação. E, às vezes, até é. Mas às vezes o buraco é mais embaixo. Você olha uma paisagem bonita e não sente nada. Escuta uma música que antes te emocionava ou te alegrava e ela já não alcança o mesmo lugar. Vive momentos bons, mas eles passam sem deixar marcas. Como se existisse uma camada que separasse você da experiência de estar vivo.

Curiosamente, o encanto não desaparece porque a vida perdeu a beleza. Muitas vezes, ele desaparece porque nós perdemos a capacidade de percebê-la. E isso acontece quando nos afastamos demais de nós mesmos. O excesso de sobrevivência cobra um preço. Há pessoas que passaram tantos anos resolvendo problemas, cuidando dos outros, tentando corresponder expectativas, sendo fortes o tempo inteiro, que em algum momento deixaram de habitar a própria existência. Continuaram vivendo, mas deixaram de saborear a vida.

Claro que percebo nisso  uma dimensão espiritual também. Não no sentido religioso, mas no sentido mais profundo da palavra espírito: aquilo que anima a vida. Porque espiritualidade é muito mais que acreditar em algo invisível. É manter viva a capacidade de sentir pertencimento, beleza, mistério e significado na existência. Quando isso se enfraquece, o mundo deixa de ser um espaço de encontros e passa a ser apenas um lugar onde se cumpre tarefas.

Talvez por isso tanta gente busque experiências espirituais extraordinárias quando, no fundo, o que a alma pede é algo muito mais simples: presença. Estar na natureza, sentir o vento, ouvir os pássaros, compartilhar uma refeição. Olhar o céu…

Existe uma espiritualidade profunda nas coisas comuns quando estamos realmente presentes para elas.

Quando vivemos tempo demais no modo sobrevivência, deixamos de perceber a beleza das coisas simples. E a alma humana não foi feita apenas para produzir, ela também precisa contemplar.

Talvez por isso as crianças se encantem com uma folha caindo, um pássaro no quintal ou uma poça d’água. O mundo não era mais bonito para elas. Elas é que ainda estavam inteiras dentro do momento presente.

Enquanto escrevo essas linhas, penso que  talvez uma das maiores tragédias da vida adulta seja acreditar que amadurecer significa perder essa capacidade.

Amadurecer não deveria significar endurecer. Não deveria significar viver anestesiado, funcional e desconectado. O problema é que a dor prolongada muitas vezes cria defesas. Quem sofreu muito aprende a não esperar demais, aprende a não se abrir tanto, a não se entusiasmar para não se frustrar. E sem perceber, constrói um tipo de proteção que não bloqueia apenas a dor, bloqueia também o encantamento.

Talvez seja por isso que tanta gente sente um vazio que não consegue explicar. Porque não falta necessariamente sucesso, dinheiro ou produtividade. Falta experiência de vida, falta presença,  natureza, silêncio… Falta tempo sem utilidade, contemplação, falta aquele estado interno em que a alma ainda consegue se surpreender com o simples.

A perda de encanto pela vida não é, necessariamente, um defeito da pessoa, na verdade acredito que seja mesmo um sintoma. Um sinal de que algo dentro dela está cansado de existir apenas no modo sobrevivência. Porque a alma humana não se alimenta só de metas cumpridas. Ela também se alimenta de beleza, significado, vínculo, mistério, arte, natureza e pertencimento.

Às vezes, a cura não começa quando algo extraordinário acontece. Ela começa quando voltamos a estar presentes no ordinário. Porque a vida continua cheia de mistérios. O que adoece, muitas vezes, é o olhar com o qual caminhamos a vida.

É preciso voltar a sentir o vento no rosto, ouvir o canto de um pássaro, preparar um café sentindo o aroma que transcende tempos e lugares. Conversar olhando nos olhos, caminhar descalço na grama. Porque é justamente nessas coisas que a vida continua acontecendo.

No fundo, perder o encanto pela vida talvez não seja o fim do encantamento. Talvez seja apenas um sinal de que existe uma parte de nós pedindo para voltar para casa. Porque a vida continua cheia de mistérios. E há momentos em que a cura começa exatamente aí: quando a gente reaprende a ver.

Deixe um comentário