“A experiência espiritual amadureceu, mas a linguagem que aprenderam para vivê-la permaneceu a mesma.”
Há algum tempo uma coisa começou a me chamar atenção. Basta a palavra oração aparecer em uma conversa para muita gente revirar os olhos. Alguns dão uma risadinha, outros mudam de assunto e tem quem sinta um verdadeiro ranço dessa palavra. Uma mentoranda minha, por exemplo, depois de mais de vinte anos frequentando a mesma igreja, me confessou que simplesmente não conseguia mais orar porque ela já não conseguia sustentar aquela forma de se relacionar com Deus que, durante tantos anos, recebeu o nome de oração. O curioso é que essas mesmas pessoas costumam gostar quando eu falo de conexão, de sintonia, de silêncio ou de reservar alguns minutos do dia para conversar com Deus e com os próprios guias espirituais. Elas rejeitam a palavra, mas continuam desejando profundamente a experiência que existe por trás dela. Foi justamente essa aparente contradição que me fez perceber que talvez o problema nunca tenha sido a oração. O desconforto parece nascer muito mais da maneira como aprendemos a compreendê-la do que da experiência espiritual que ela, em sua essência, sempre procurou representar.
Para entender isso, acredito que precisamos dar alguns passos para trás. Não apenas para olhar a história das religiões, mas principalmente para compreender como a consciência humana foi amadurecendo ao longo do tempo. Existe um erro muito comum de olharmos para qualquer tradição espiritual antiga com a tendência de julgá-la utilizando os valores, a psicologia e a compreensão de mundo que possuímos hoje. Lemos textos escritos há milhares de anos como se tivessem sido produzidos para responder às perguntas do século XXI e, inevitavelmente, eles acabam parecendo primitivos, violentos ou contraditórios. No entanto, talvez a pergunta mais importante não seja se aquele povo acreditava em um Deus guerreiro, vingativo ou punitivo, mas que tipo de consciência humana era capaz de compreender Deus daquela maneira. Essa mudança de perspectiva transforma completamente a conversa, porque nos permite perceber que toda imagem construída sobre Deus revela tanto sobre quem a criou quanto sobre o próprio sagrado.
O ser humano nunca se relacionou diretamente com o mistério. Sempre precisou construir símbolos para se aproximar daquilo que ainda não conseguia compreender plenamente. Foi assim com o Sol, com a Lua, com os ciclos da natureza, com os deuses das antigas civilizações, com os orixás, com os santos, com Cristo e com todas as imagens que, ao longo da história, serviram como pontes entre a consciência humana e aquilo que chamamos de divino. Nenhum símbolo é capaz de esgotar Deus, justamente porque o mistério sempre será maior do que qualquer linguagem que tentemos utilizar para descrevê-lo. Os símbolos nunca tiveram a função de aprisionar a experiência espiritual, eles existem para nos aproximar dela, mas quando esquecemos que um símbolo é apenas uma ponte e passamos a tratá-lo como destino final, isso acaba se tornando um problema. A experiência continua amadurecendo, a consciência continua se expandindo, mas a linguagem permanece congelada. É justamente dessa distância entre a experiência e a linguagem que nascem muitos dos conflitos espirituais que encontramos hoje.
Quando olhamos para os povos antigos sob essa perspectiva, fica muito mais fácil compreender por que determinadas imagens de Deus surgiram. Um povo cuja sobrevivência dependia de vencer guerras inevitavelmente enxergaria Deus como um guerreiro. Um povo cercado por inimigos encontraria segurança na ideia de um Deus que lutasse ao seu lado. Um povo que precisava conquistar território compreenderia o sagrado como aquele que protegia seu exército e garantia sua vitória. Isso não significa que Deus fosse um guerreiro ou que desejasse a destruição dos povos inimigos. Significa apenas que aquela era a linguagem possível para traduzir a experiência espiritual naquele momento da história. O ser humano sempre descreveu Deus a partir da própria consciência e, por isso, à medida que a consciência amadurece, também amadurece a forma como compreendemos o divino.
Essa observação é importante porque nos ajuda a perceber que a oração também foi sendo moldada pela mesma consciência que moldou a imagem de Deus. Se Deus era compreendido como um rei, era natural que a oração assumisse a forma de uma audiência diante desse rei. Se Deus era o grande juiz, rezar significava buscar absolvição, proteção ou justiça. Se Deus era aquele que conduzia um povo à vitória, fazia sentido pedir que permanecesse ao lado dos seus durante as batalhas. Aos poucos, a oração foi assumindo uma função profundamente ligada à sobrevivência. Ela se tornou um espaço para pedir proteção, conquistar o favor divino, agradecer pelas vitórias e tentar garantir que Deus continuasse presente ao lado daquele povo diante das ameaças que enfrentava diariamente. Vista dentro daquele contexto histórico, essa construção faz completo sentido. Seria profundamente injusto analisar essa espiritualidade sem considerar as circunstâncias em que ela nasceu.
O que muitas vezes esquecemos é que a consciência humana não permaneceu parada no tempo. Ao longo da história não foi apenas a sociedade que mudou, foi a própria forma como passamos a compreender a nós mesmos. Durante muito tempo nossa principal preocupação era sobreviver. Depois aprendemos a construir cidades, desenvolver ciência, filosofia, psicologia e ampliar profundamente a compreensão sobre a mente humana. Se a consciência amadurece, é natural que amadureça também a forma como nos relacionamos com Deus. O problema não está em um povo do passado ter compreendido Deus de determinada maneira. O problema começa quando tentamos permanecer espiritualmente na mesma etapa da consciência enquanto toda a nossa experiência humana continua evoluindo. É justamente nesse momento que muitas pessoas passam a viver um conflito difícil de nomear. Em algum ponto da caminhada, percebem que já não conseguem rezar da mesma forma, porque aquela linguagem já não consegue expressar a experiência espiritual que vivem hoje. A consciência amadureceu, as perguntas se tornaram outras e, naturalmente, também mudou a forma como passamos a compreender Deus, a espiritualidade e o sentido da própria oração. O problema é que continuamos tentando viver essa nova experiência utilizando uma linguagem construída para responder às necessidades de uma outra etapa da consciência humana. É dessa distância entre uma consciência que evoluiu e uma linguagem que permaneceu praticamente a mesma que nasce boa parte do desconforto que tantas pessoas sentem quando a palavra oração aparece em uma conversa.
A maneira como imaginamos Deus dificilmente permanece restrita à espiritualidade. Ela acaba se tornando, muitas vezes sem percebermos, a forma como aprendemos a olhar para nós mesmos. Se crescemos acreditando em um Deus que aprova quando acertamos e se afasta quando erramos, existe uma boa chance de construirmos uma consciência que também funciona dessa maneira. Passamos a viver tentando merecer amor, aprovação e reconhecimento. Errar deixa de ser uma oportunidade de aprendizagem e passa a significar fracasso moral. A culpa deixa de cumprir sua função natural de nos ajudar a reparar aquilo que causamos e passa a ocupar o centro da vida psíquica. Aos poucos, nossa relação com Deus, com os pais, com professores, líderes, parceiros e até conosco começa a obedecer exatamente à mesma lógica. É por isso que tantas pessoas deixam uma religião, mas continuam vivendo a mesma estrutura psicológica. Mudam o templo, mudam os símbolos, mudam o discurso, mas continuam tentando merecer amor, aprovação e pertencimento. O problema nunca foi apenas teológico. Ele sempre foi profundamente psicológico.
A consequência desse processo aparece de forma muito clara quando alguém inicia uma jornada de desconstrução espiritual. Depois de anos vivendo uma espiritualidade baseada em regras, culpa, obrigação e na tentativa constante de agradar a Deus, é natural que a pessoa sinta necessidade de se afastar de tudo aquilo que represente esse modelo de relação. Em muitos casos, abandonar a religião é um passo importante desse processo, porque permite respirar, fazer perguntas que antes eram proibidas e recuperar a liberdade de pensar. Só que, junto com os dogmas, muitas pessoas acabam abandonando também qualquer prática de encontro com a espiritualidade. Deixam de repetir orações, mas também deixam de conversar com Deus. Deixam de buscar respostas prontas, mas também deixam de criar espaços de escuta. Aos poucos, sem perceber, a vida passa a acontecer inteiramente dentro da matéria. A espiritualidade continua existindo como uma crença, como uma lembrança ou como uma ideia bonita, mas deixa de ocupar um lugar vivo na experiência cotidiana.
É justamente aqui que, para mim, começa uma espiritualidade com autonomia. E faço questão de dizer “com autonomia”, porque autonomia nunca significou caminhar sozinho. Durante muito tempo confundimos autonomia com independência absoluta, como se amadurecer espiritualmente significasse não precisar mais de ninguém, nem de Deus, nem dos guias, nem da comunidade, nem de qualquer tipo de orientação. Essa nunca foi a minha compreensão. A autonomia de que falo nasce quando deixamos de terceirizar a responsabilidade pela própria vida, mas continuamos escolhendo caminhar em relação. Continuamos escolhendo aprender, ouvir, discernir e cooperar com aquilo que percebemos como uma inteligência maior do que a nossa. A diferença é que essa relação deixa de ser construída pela dependência e passa a ser construída pela consciência.
Talvez seja justamente por isso que eu tenha começado a utilizar muito mais a palavra sintonia do que a palavra oração. Não porque eu acredite que exista algum problema em continuar chamando esse momento de oração. Conheço pessoas que vivem experiências profundamente transformadoras através dela e não vejo motivo algum para abandonar uma palavra que faz sentido para tanta gente. A escolha da palavra sintonia acontece porque ela descreve melhor a experiência que vivo e aquilo que procuro ensinar. Quando penso em sintonia, não imagino alguém tentando convencer Deus de alguma coisa, nem uma pessoa esperando que o mundo espiritual resolva problemas que pertencem à experiência humana. Penso em alguém que interrompe, ainda que por alguns minutos, a velocidade da vida para voltar a perceber quem é, onde está e com quem caminha.
Foi justamente nesse processo que a minha relação com os guias espirituais também mudou profundamente. Durante muito tempo aprendi, como a maior parte das pessoas aprenderam dentro das tradições mediúnicas, que essa relação existia principalmente para servir ao outro. Eu estudava, desenvolvia minha mediunidade, fortalecia essa conexão para que ela pudesse ser colocada a serviço das pessoas que chegavam até mim. E continuo acreditando profundamente na beleza desse trabalho. Mas, em algum momento da caminhada, comecei a perceber que existia uma pergunta que quase ninguém fazia. Se os meus guias caminham comigo durante toda a minha existência, por que eu me relacionaria com eles apenas quando estou ajudando alguém?
Essa pergunta mudou completamente a maneira como compreendo a mediunidade. Passei a perceber que essa relação também existia para me ensinar a viver. Os meus guias caminham comigo quando preciso discernir entre o medo e a intuição, quando começo um projeto novo, quando atravesso uma crise, quando preciso compreender um ciclo que está chegando ao fim ou simplesmente quando desejo olhar para a vida a partir de uma perspectiva maior do que aquela oferecida apenas pela matéria. A mediunidade deixou de ser apenas uma ferramenta de serviço e passou a se tornar um relacionamento. E como qualquer relacionamento verdadeiro, ele não se fortalece apenas nos momentos extraordinários. Ele cresce na convivência, na intimidade e na presença cultivadas todos os dias.
Talvez seja exatamente isso que tantas tradições espirituais procuraram ensinar utilizando palavras diferentes. Algumas chamaram de oração, outras de contemplação, outras de meditação, recolhimento, presença ou silêncio. Eu gosto da palavra sintonia porque ela me lembra que esse encontro não acontece apenas entre mim e Deus. Ele acontece também entre mim e a minha própria consciência, entre mim e os meus guias, entre aquilo que vivo na matéria e aquilo que permanece ligado à minha realidade espiritual. Entrar em sintonia não significa abandonar o mundo para viver uma experiência mística. Significa permitir que a dimensão espiritual participe conscientemente da forma como escolho viver a experiência humana.
Quando essa prática se torna um hábito, acontece uma mudança que, para mim, é uma das mais importantes de toda a caminhada espiritual. A espiritualidade deixa de ser um departamento da vida. Ela deixa de ocupar apenas o horário da gira, da missa, do culto, da meditação ou da oração e passa a organizar todas as outras dimensões da existência. A maneira como nos relacionamos com as pessoas começa a mudar, a forma como trabalhamos muda, nossas escolhas passam a ser feitas a partir de um lugar diferente, os conflitos continuam existindo, porque amadurecer espiritualmente nunca significou deixar de viver desafios, mas eles passam a ser compreendidos dentro de uma perspectiva muito mais ampla. Aos poucos, percebemos que o trabalho, os relacionamentos, a saúde, o dinheiro, os projetos e até as crises deixam de girar exclusivamente em torno da sobrevivência, do reconhecimento ou do medo e começam a ser iluminados por uma consciência que se lembra diariamente de que a matéria nunca foi a única dimensão da existência.
É por isso que acredito que a maior transformação provocada por essa prática não está na quantidade de respostas que recebemos, mas na qualidade das perguntas que passamos a fazer. A sintonia existe para ampliar a consciência com a qual escolhemos viver. Continuaremos tendo que decidir, errar, recomeçar, mudar de direção e enfrentar as consequências das nossas escolhas. A diferença é que deixamos de fazer isso completamente sozinhos, porque aprendemos a incluir conscientemente a espiritualidade nesse processo.
Talvez você continue chamando esse momento de oração. Talvez prefira chamá-lo de meditação, contemplação, conexão ou qualquer outro nome que faça sentido para a sua caminhada. Sinceramente, acredito que a palavra ocupa um lugar muito menor do que imaginamos. O que realmente transforma a nossa relação com a espiritualidade é recuperar o hábito desse encontro e permitir que ele deixe de acontecer apenas quando a vida aperta. Nenhum relacionamento floresce quando só existe nos momentos de necessidade, e talvez essa seja a maior reconstrução que podemos fazer depois de um processo de desconstrução religiosa: descobrir que Deus nunca precisou ser convencido a caminhar conosco. Quem, muitas vezes, precisou reaprender a caminhar em Sua companhia fomos nós.
Obrigada por me ler.
Que a mensagem seja mais importante que o mensageiro.

