Existe uma cena muito comum na vida de quase todo mundo. As coisas caminham normalmente até que um problema aparece, uma decisão importante precisa ser tomada, um relacionamento entra em crise ou a vida parece perder um pouco da direção. É justamente nesse momento que lembramos da espiritualidade. Conversamos com Deus, buscamos um atendimento espiritual, pedimos um sinal, acendemos uma vela, fazemos uma oração ou procuramos os nossos guias esperando alguma orientação. Depois que a situação se resolve, voltamos para a rotina e, quase sempre, aquela relação fica adormecida até que uma nova dificuldade nos faça lembrar dela outra vez.
Durante muito tempo eu também vivi assim, e foi justamente essa forma de me relacionar com a espiritualidade que comecei a questionar. Porque nenhum relacionamento importante da nossa vida se fortalece quando só existe nos momentos de necessidade. Pense em uma amizade verdadeira, em um casamento, na relação entre pais e filhos… Nenhum desses vínculos cria profundidade porque as pessoas só conversam quando precisam resolver um problema. O que constrói intimidade é a convivência, a presença constante, o tempo compartilhado, a conversa que acontece mesmo quando aparentemente não existe nenhum motivo especial para conversar.
Eu acredito que com a espiritualidade acontece exatamente a mesma coisa.
Talvez um dos maiores equívocos que aprendemos seja imaginar que a espiritualidade existe para resolver problemas. Pra mim ela existe, antes de tudo, para construir relacionamento. Um relacionamento vivo com Deus, com os nossos guias, com toda a espiritualidade que caminha conosco e, consequentemente, com a gente mesmos. O fato é que quanto mais nos aproximamos dessa dimensão da existência, mais compreendemos quem somos, quais valores realmente sustentam a nossa vida e que tipo de pessoa estamos nos tornando ao longo da caminhada.
É por isso que gosto tanto da palavra sintonia.
Sintonia não é um ritual, nem uma técnica. Não é repetir palavras decoradas nem tentar provocar experiências extraordinárias. Sintonia é um estado de disponibilidade. É reservar, todos os dias, alguns minutos para diminuir a velocidade da matéria e voltar a lembrar que a nossa consciência não termina nela. É criar espaço para respirar, silenciar um pouco o excesso de estímulos, conversar com os Deuses que nos habitam, com os nossos guias, abrir o coração, observar a própria vida e permitir que essa perspectiva mais ampla participe das escolhas que fazemos todos os dias.
Quando essa prática se torna um hábito, algo muito interessante começa a acontecer. A espiritualidade deixa de ser um departamento isolado da nossa vida e passa a se tornar o eixo em torno do qual ela se organiza. Os relacionamentos passam a ser vividos de outra maneira. As decisões deixam de nascer apenas da ansiedade ou do medo, e a forma como lidamos com o trabalho, com o dinheiro, com os desafios, com o corpo, com as emoções e até com o tempo começa a mudar. E não! os problemas não desaparecem, mas deixamos de enfrentá-los sozinhos e passamos a construir a vida em cooperação com a espiritualidade.
E aqui existe um ponto que, para mim, faz toda a diferença. Durante muito tempo aprendemos que a mediunidade serve para colocar nossos guias a serviço das pessoas que procuram ajuda. Eu continuo acreditando profundamente nessa missão, mas não acredito que seja apenas isso, ela não termina aí. Se esses mesmos guias caminham conosco todos os dias, por que nossa relação com eles deveria acontecer apenas durante um trabalho espiritual? Por que não aprender a construir uma intimidade capaz de iluminar também as nossas escolhas, os nossos relacionamentos, os nossos projetos e a forma como atravessamos a vida?
Talvez seja exatamente isso que eu chamo de espiritualidade com autonomia.
Não é sobre ter ou não uma religião. Não significa abandonar correndo um terreiro, uma igreja ou qualquer outro caminho espiritual. Significa desenvolver uma relação tão viva com a espiritualidade que ela deixa de depender exclusivamente desses espaços. O terreiro continua sendo um lugar de fortalecimento, o templo continua sendo um lugar de encontro. Mas a sintonia não fica guardada lá dentro, ela acompanha você na segunda-feira de manhã, em uma conversa difícil, em uma decisão profissional, em um conflito familiar ou naquele momento em que ninguém pode escolher por você.
Quanto mais cultivamos essa sintonia, mais percebemos que Deus, Orixás, santos, nossos guias e toda a espiritualidade deixam de ocupar apenas um espaço religioso da nossa vida e passam a participar da construção da nossa história. Não para decidir por nós, não para nos poupar da experiência humana e muito menos para substituir a nossa responsabilidade. Eles caminham conosco para ampliar a nossa consciência, oferecer outra perspectiva e cooperar na construção de uma vida mais lúcida, mais coerente e mais alinhada com aquilo que realmente viemos viver.
Talvez esse seja um dos maiores presentes que podemos oferecer a nós mesmos. Não esperar que a dor nos obrigue a procurar a espiritualidade, mas permitir que ela participe da nossa caminhada antes mesmo que a vida precise gritar para chamar a nossa atenção. Porque, quando a sintonia se torna um hábito, ela deixa de ser apenas um momento do dia e se transforma na maneira como escolhemos viver.
𝙀𝙪 𝙣𝙖̃𝙤 𝙙𝙞𝙜𝙤 𝙣𝙤 𝙦𝙪𝙚 𝙖𝙘𝙧𝙚𝙙𝙞𝙩𝙖𝙧, 𝙚𝙪 𝙩𝙚 𝙖𝙟𝙪𝙙𝙤 𝙖 𝙥𝙚𝙧𝙘𝙚𝙗𝙚𝙧 𝙤 𝙦𝙪𝙚 𝙩𝙚 𝙜𝙪𝙞𝙖.
𝙀𝙡𝙡𝙖

