13 de maio, a lei foi assinada.
Mas tem coisa que não acaba só porque virou lei. Tem estrutura que continua viva no jeito que um país funciona, no jeito que as pessoas olham umas pras outras, no jeito que alguns corpos seguem tendo que sobreviver o tempo inteiro em estado de alerta.
Não é só sobre o passado, é sobre o que acontece agora, hoje. Sobre quem entra num shopping e já percebe o segurança acompanhando de longe. Sobre quem precisa pensar duas vezes antes de correr na rua, antes de entrar em certos lugares. Sobre quem cresce aprendendo, mesmo sem ninguém dizer explicitamente que vai precisar ser duas vezes melhor pra receber metade do reconhecimento. E isso vai cansando, vai entrando no corpo, na autoestima, na forma de existir no mundo.
E o problema é que depois de muitos anos vivendo assim, muita coisa começa a parecer normal até pra quem sente isso na pele. A pessoa aprende a ocupar menos espaço, aprende a medir o tom da voz, aprende a chegar em certos ambientes já tentando não incomodar, tentando parecer segura, aceitável, impecável. Tem gente que cresce sem nunca conseguir relaxar de verdade em determinados lugares, porque o corpo já entendeu que talvez precise se defender antes mesmo de qualquer coisa acontecer. Isso é o que acontece quando um grupo inteiro vive por gerações sendo observado primeiro com suspeita e só depois com humanidade.
O mais assustador é que vivemos sob um racismo disfarçado. Ele vem no comentário “inocente”, na piada que não é nada demais, na desconfiança automática, na vaga de emprego que pede “boa aparência”, no elevador em que alguém segura a bolsa mais forte quando certa pessoa entra. E depois ainda existe a coragem de dizer que isso é exagero, vitimismo ou mania de perseguição.
E isso precisa ser dito e esclarecido dentro de ambientes religiosos e espirituais também. Porque não basta bater no peito dizendo que ama Preto Velho, acender vela, cantar ponto e pedir bênção no terreiro, enquanto do lado de fora, continua tratando pessoas pretas com preconceito, desconfiança e desigualdade. Não existe conexão real com ancestralidade enquanto o racismo continua sendo relativizado no cotidiano. Não existe consciência espiritual num discurso que reverencia entidades negras dentro do ritual, mas continua negando humanidade, escuta e dignidade fora dele.
A verdade é que muita gente gosta da ideia de igualdade, desde que ela não mexa nos privilégios de ninguém. Porque olhar de verdade pra história do Brasil exige reconhecer que existe uma ferida que nunca foi cuidada. A escravidão acabou sem reparação, sem estrutura, sem dignidade. Jogaram milhões de pessoas à própria sorte e depois chamaram sobrevivência de falta de esforço.
E talvez seja justamente por isso que tanta coisa continua se repetindo, afinal um país que nunca encarou a própria violência aprende a normaliza- la, a conviver com ela, aprende a negar que ela exista.
Então não, não basta celebrar uma assinatura histórica enquanto ainda existe gente tendo a humanidade colocada em dúvida todos os dias.
Enquanto existir alguém sendo visto primeiro com desconfiança e só depois como pessoa, essa conversa continua longe de terminar.
No fim das contas, falar sobre racismo não deveria ser visto como uma militância inconveniente. Estamos falando sobre gente, sobre quem pode descansar sem medo e quem continua vivendo em estado de defesa até nas experiências mais comuns da vida.
Meus pais me ensinaram a rezar, mas minha preta velha me ensinou sobre politica mesmo.

