A ironia espiritual: quando a luz cega mais do que ilumina

Vivemos tempos em que é fácil se encantar com a linguagem elevada da espiritualidade. Fala-se de energias sutis, de consciência cósmica, de mensagens canalizadas de outras galáxias. Multiplicam-se retiros, cursos, iniciações. Multiplicam-se também as palavras bonitas, os discursos impecáveis, as frases feitas. Mas há algo que quase sempre escapa pelos vãos desses discursos polidos: a realidade crua da vida cotidiana. É irônico, e um tanto trágico, que muitos que falam de expansão da consciência não consigam lidar com as emoções mais básicas, como a raiva, o medo, a inveja. Que se fale com naturalidade sobre chakras e dimensões, mas não se consiga sustentar um diálogo verdadeiro com os próprios pais, os próprios filhos, o próprio espelho. A espiritualidade, quando desconectada da vida, torna-se uma forma refinada de fuga.

Há quem fale em nome de seres elevados, mas não consiga sustentar a própria verdade. Que se esconda atrás de entidades, guias e mitologias, evitando o confronto com o que é humano demais. O autoconhecimento vira performance. A evolução vira identidade. E o caminho espiritual se transforma em um palco onde cada um encena o personagem mais iluminado que conseguir construir. Mas por trás dessa luz encenada, muitas vezes mora a sombra negada. Aquele que diz se sentir uno com o universo, por vezes mal consegue estar em paz com o próprio corpo, com sua história, com suas contradições. É fácil meditar por horas em busca de paz, difícil mesmo é ouvir o que o silêncio revela. É bonito entoar mantras, muito mais desafiador é encarar as próprias incoerências, assumir responsabilidades, cultivar relações verdadeiras.

Há quem diga incorporar guias e espíritos, mas viva completamente desconectado das comunidades, das causas coletivas, dos dramas reais que atravessam a sociedade. Que espiritualidade é essa que ignora o sofrimento alheio? Que conexão com o todo é essa que não passa pelo olhar ao redor? Um caminho espiritual que não desemboca em serviço ao mundo é apenas mais uma forma de narcisismo. A espiritualidade não foi feita para nos isolar em torres de cristal, mas para nos fazer descer às ruas, ouvir o outro, acolher a dor, agir com compaixão. Espiritualidade que não toca o chão é fantasia. E fantasia que se alimenta da negação da realidade adoece mais do que cura.

Vivemos também a ironia de um masculino dito “curado” que não suporta ser questionado por uma mulher que se posiciona. De homens que frequentam rodas de cura e fazem rituais de ayahuasca, mas se incomodam quando ouvem a voz de uma feminista. Falam de vulnerabilidade, mas não suportam perder o controle. Falam de amor, mas se esquivam da escuta. Querem o sagrado feminino para embelezar seus altares, mas não para ouvir o que ele tem a dizer. A verdadeira cura do masculino não se dá na estética do discurso, mas na disposição em rever seus privilégios, na humildade em aprender com o feminino, na coragem de se despir das armaduras da razão.

E não pense que essa cegueira espiritual é exclusividade dos homens. O sagrado feminino, tão invocado nas rodas de mulheres e nas falas de empoderamento, também corre o risco de se tornar um personagem, uma performance, um ideal romântico desconectado da realidade emocional de quem o propaga. É fácil demonstrar sororidade quando acolhemos alguém ferida, a mulher em sofrimento ainda nos parece familiar, segura, digna de cuidado. Mas e quando ela começa a se erguer? Quando deixa de ocupar o lugar da dor e passa a viver sua potência, ocupar espaços, expressar sua beleza e sua verdade sem pedir licença? Aí surgem outras emoções, nem sempre confortáveis. A comparação silenciosa, o julgamento velado, aquela sensação desconcertante de se sentir ameaçada por alguém que, até ontem, parecia precisar de nós. A sombra feminina também precisa ser curada. Não com mais controle, não com culpa, mas com lucidez e acolhimento.

É preciso maturidade para reconhecer que a dor que sentimos diante da potência de outra mulher não é um defeito, é uma ferida coletiva, plantada por séculos de competição imposta, escassez emocional e validação externa. Fomos treinadas para acreditar que há pouco espaço para o brilho. Que a conquista de uma é sinal de perda para as outras. Mas isso é mentira. A vitória de uma mulher não diminui ninguém, ela alarga o possível. Quando conseguimos enxergar isso com o coração aberto, nasce uma nova forma de estar entre mulheres: menos defesa, mais inspiração. Menos comparação, mais coragem. Sair da fogueira é escolher não repetir o ciclo. É parar de temer quem brilha, e começar a se permitir acender também.

O caminho espiritual é, acima de tudo, um caminho de realismo. De aprender a ver a realidade como ela é, não como gostaríamos que fosse. De lidar com as próprias limitações, com os incômodos do cotidiano, com os espelhos das relações humanas. De servir ao mundo, não apenas a si mesmo. De se permitir ser atravessado pelo sagrado, sim, mas também pelas demandas concretas da vida. Quem verdadeiramente se abre ao invisível não fecha os olhos para o visível. Quem se conecta com o Todo, cuida da parte que lhe cabe. Quem se alinha com a Fonte, se compromete com a transformação do mundo ao seu redor.

A espiritualidade não é um refúgio para os que fogem da vida. É um chamado para os que têm coragem de habitá-la por inteiro.

Com Amor e magia, Ella

Amo te ver gigante.