Nem todo afastamento é ausência de fé. Às vezes, é exatamente o contrário: um gesto de amor-próprio, de proteção da alma, de respeito pelo próprio sentir. Há quem diga que sair de um terreiro é se desligar da espiritualidade, mas quem passou por isso de verdade sabe… tem hora que, pra não se perder de si, é preciso se afastar de onde a alma começou a doer.
Falo disso não como teoria, mas como experiência vivida. O terreiro foi, por muito tempo, meu chão, meu refúgio, meu templo. Aprendi, me emocionei, fui guiada, e sou profundamente grata. Mas também fui, aos poucos, sentindo que algo se perdia ali dentro, e dentro de mim. Não era a Umbanda que doía. Era o ambiente construído ao redor dela. Eram as dinâmicas invisíveis que geravam exclusão, competição, silenciamento. Era o ego, não só de quem dirige, mas também de quem gira ao lado, disfarçado de hierarquia, de “merecimento”, de antiguidade. Eram os pequenos círculos de poder, as panelinhas que acolhem uns e ignoram outros, que distribuem abraços, mas também congelam quem não se encaixa.
Também vi a espiritualidade ser tomada por uma vaidade silenciosa. As roupas precisam ser cada vez mais impecáveis, as oferendas cada vez mais luxuosas, os elementos cada vez mais caros. E o que antes era simples… um coco, uma vela, uma flor colhida no quintal, passou a ser medido, avaliado, julgado. Fiquei me perguntando quantos estão deixando de fazer suas entregas por vergonha de não terem “o suficiente”. E quem definiu o que é suficiente para um orixá?
Em muitos terreiros, tudo ficou caro demais. Não só financeiramente, com mensalidades altas e listas de obrigações extensas. Mas caro emocionalmente. Cobra-se presença irrestrita, obediência sem questionamento, dedicação acima de qualquer limite. Mas pouco se fala de escuta, de cuidado real, de espaço seguro para quem não está bem. Quantas vezes alguém faltou porque estava mal… e não foi acolhido, mas julgado?
E eu achava que essa história era só minha. Mas quando comecei a falar disso nas minhas redes, outras histórias começaram a chegar até mim, muitas, de pessoas que nunca pisaram em um terreiro, mas viveram experiências muito parecidas em outras religiões. Gente que se afastou de igrejas evangélicas porque já não aguentava mais ser controlada pela culpa e pelo medo. Gente que saiu de centros espiritas por não suportar mais a exigência de perfeição. Gente que se sentiu invisível em grupos de yoga, rituais xamânicos, seitas, sinagogas, paróquias. Gente que amava a espiritualidade, mas começou a adoecer no espaço onde deveria ser curada.
Uma mulher me escreveu dizendo que saiu de um templo budista porque já não aguentava mais a pressão silenciosa por disciplina e silêncio absoluto, mesmo quando estava em luto. Um homem me contou que deixou uma igreja neopentecostal depois de anos de fidelidade, quando percebeu que seus questionamentos não eram bem-vindos — era bem-vindo enquanto concordava com tudo. Uma jovem me disse que deixou um grupo de medicina da floresta, onde tudo girava em torno do líder e das aparências, e não mais do sagrado.
Essas histórias ecoaram dentro de mim. Me mostraram que o problema não é a religião, é quando ela se distancia da alma. É quando o poder humano sufoca a presença divina. É quando a regra vira mais importante que o coração.
E não fui só eu.
Conheci Mariana, que saiu em silêncio depois de anos sendo chamada de “irmã”. Quando atravessou um problema pessoal profundo, esperou algum gesto de carinho, esperou ser cuidada, mas só recebeu indiferença. Ao voltar, ouviu que “estava em dívida”. Como se dor se pagasse em obrigações.
Teve o André, cambono comprometido, que começou a perceber incoerências e tentou perguntar com respeito. Bastou isso para que se tornasse invisível ali dentro. As portas não se fecharam oficialmente. Mas o olhar já não o procurava mais. E foi ele mesmo quem entendeu: “aqui já não é mais meu lugar”.
E tem a Dona Lurdes, mãe de santo das antigas, que já não recebe gira em sua casa. “Não dou conta mais”, ela me disse. “Mas acendo minha vela, falo com meus guias, deixo um copo de água pra eles. Minha fé nunca foi embora. E eu também nunca fui embora da fé.”
Essas histórias me ensinaram que a espiritualidade verdadeira não se limita a espaços físicos. Que o axé não se apaga quando deixamos de bater a cabeça no chão do terreiro. Que o Divino não nos abandona porque nos afastamos de um grupo. O sagrado continua conosco. No altar improvisado, na prece solitária, no toque sutil do invisível que a gente reconhece mesmo sem testemunhas. Porque o sagrado vive onde há verdade, onde há escuta, onde há humildade. E isso, nenhuma instituição pode controlar.
Se você se afastou, mas continua ouvindo sua intuição…
Se sente saudade, mas também alívio…
Se ainda conversa com seus guias no escuro do seu quarto, mesmo sem atabaque ou defumador…
Se ainda sente Deus, mesmo depois de ter deixado a igreja…
Você ainda está no caminho.
O templo pode ter ficado pra trás. Mas a fé, não.
O axé, a luz, a conexão… continuam com você.
E é por isso que hoje eu falo com tanta clareza sobre espiritualidade autônoma. Porque eu não ouvi dizer.
Eu vivi.
E sigo vivendo, com fé limpa, com peito aberto, com minha alma em paz.
Com Amor e magia,
Ella
Amo te ver gigante.

