A psicologia, quando ignora a espiritualidade de terreiro, não está sendo neutra. Esse silêncio se torna um ato de colonização da alma, porque reforça a ideia de que apenas algumas experiências espirituais são legítimas e outras devem ser escondidas, reduzidas ou patologizadas. Em um espaço que deveria acolher a verdade mais íntima do ser, muitos se veem obrigados a calar o que os sustenta. A fé, a relação com os Orixás, a mediunidade, os sonhos e símbolos que estruturam a vida interior tornam-se um segredo guardado, como se fossem inadequados para o setting terapêutico. O resultado é uma psique fragmentada: de um lado, o sujeito que fala; de outro, o sujeito que silencia. E tudo o que é silenciado, mais cedo ou mais tarde, adoece.
Esse silenciamento não é apenas individual, mas coletivo. Ele nasce de um olhar eurocêntrico que ainda dita as bases de grande parte da psicologia brasileira, estruturada sobre teorias que não contemplam a diversidade das tradições afro-diaspóricas. É como tentar tocar samba com partitura de valsa: pode haver técnica, mas falta ritmo, corpo e verdade. O que não se reconhece como legítimo não deixa de existir, apenas é empurrado para a margem. E, no caso das espiritualidades de matriz africana, essa marginalização tem nome: racismo religioso. Ele molda não só o espaço social, mas também os espaços de escuta, levando muitas pessoas a acreditarem que, para serem acolhidas, precisam se despir de uma parte essencial de si.
Mas como falar em saúde psíquica sem considerar a alma? Como sustentar um processo terapêutico que, em vez de integrar, fragmenta? A espiritualidade não é um acessório da vida, mas uma dimensão profunda do ser humano. Jung já reconhecia que as experiências espirituais são psicologicamente reais, carregam memória coletiva, ancestralidade e desejo de integração. Elas fazem parte da psique tanto quanto os pensamentos, emoções e desejos conscientes. Negar essa dimensão é negar a própria inteireza do sujeito. Uma escuta que cala a espiritualidade deixa de ser terapêutica porque corta o elo entre o ser e suas raízes simbólicas. E ninguém se sustenta inteiro quando precisa dividir a própria fé para ser aceito.
Reconhecer a espiritualidade de terreiro como parte legítima da psique não é apenas um gesto de respeito cultural; é um ato clínico fundamental. Significa acolher o Orixá como força viva que estrutura a subjetividade, ouvir a mediunidade como expressão autêntica do mundo interno, permitir que os rituais e símbolos sejam vistos como material de integração e não como desvios a serem corrigidos. Fé e saúde mental não são inimigas, mas parceiras que se fortalecem mutuamente quando há espaço para diálogo. Uma terapia que acolhe essa dimensão se torna não só mais ética, mas também mais eficaz, porque não pede ao sujeito que se fragmente para ser compreendido.
A espiritualidade autônoma nos lembra que o sagrado não cabe em dogmas estreitos, mas se revela naquilo que cada pessoa vive como verdade. No terreiro, no altar íntimo, na oração silenciosa ou na dança em roda, a alma encontra meios de se expressar e de se curar. A clínica, quando se abre a essa dimensão, torna-se espaço de integração, onde a psique pode se reconhecer inteira. E talvez esse seja o verdadeiro desafio para a psicologia contemporânea: abandonar os filtros colonizadores e reconhecer que a alma humana não se explica apenas em categorias, mas se canta, se dança, se incorpora nos valores que atravessam a vida. Porque espiritualidade não é fuga da realidade; é o modo como a realidade ganha sentido, corpo e dignidade dentro de nós.
Com Amor e magia,
Ella
Amo te ver gigante.

