Sussurros da Alma: Redescobrindo a alegria entre os passos da vida

Desde cedo, a sociedade nos molda para seguir um caminho.
Um caminho que muitas vezes não reflete, nem de longe, quem realmente somos.
A gente vai sendo incentivado a nos adequar às expectativas; vai se envolvendo em papéis e metas que não foram escolhidos por nós, mas nos foram impostos.
Impostos por uma estrutura que valoriza a produtividade acima de tudo, até do bem e do mal.

Nos ensinam a fazer o que se espera, a calar o nosso coração quando ele sonha sonhos diferentes.
Foram nos convencendo e, com o tempo, nós passamos também a nos convencer de que “é assim mesmo”, que a vida é feita de sacrifícios, que viver é pagar contas, e a felicidade é um detalhe, um luxo para poucos.

Mas será que precisa ser assim?
Essa semana, conversando com uma amiga da mentoria que fazemos juntas, ela disse:
“Eu já tenho o sucesso profissional, meu apartamento próprio, sou bem-casada com um homem lindo, tenho um filho, e agora é hora de pensar em mim.”

O que vocês percebem dessa fala?

Eu percebo que, primeiro, nos deixamos de lado e, quando não há mais nenhum check que precisa ser dado, aí sim vamos olhar para nós.

Que bom que ela vai olhar para si. Muitos não têm esse tempo.

Mas por que não somos ensinados desde cedo a olhar para nós em primeiro lugar? A olhar para nossos sonhos verdadeiros, a fazer aquilo que faz sentido para nós, independente das tradições?
Pensa como seria muito mais leve poder viver a nossa vida desde cedo.
Talvez até seria mais gostoso viver.

Chega uma hora em que a nossa essência pede espaço, pede cor, numa vida preta e branca ou, no máximo, cinza.
Ela pede alegria.
A cada tarefa cumprida que não nos representa, adormece uma parte nossa, e a gente vai se perdendo…

Até o dia em que decidimos resgatar o tempo que doamos, como essa amiga decidiu fazer.
Quando éramos crianças, queríamos apenas brincar, descobrir, experimentar.
Mas nos ensinaram que a “brincadeira” não leva a lugar algum, que o tempo deve ser “bem aproveitado” – e isso significa seguir uma lista de tarefas que nos tornam adultos respeitáveis.
E assim fomos trocando a alegria da descoberta pelo peso da obrigação.
Passamos a dar nossos dias não ao que nos faz sorrir, mas ao que “se espera de nós”.

Óbvio que nem sempre a gente consegue mudar o que fazemos, mas podemos tentar encontrar uma outra forma de fazer.
Às vezes, só precisamos fazer pequenos ajustes.
Talvez não consigamos mudar tudo, ou não de uma vez, mas, aos poucos, podemos trazer graça para pequenas tarefas do dia a dia.

Como lavar a louça, por exemplo.
Ao invés de ser um momento chato, em que a gente abre a torneira e começa a ensaboar, por que não colocar uma música e fazer isso movimentando o corpo no ritmo?
Ou usar esse momento para silenciar e respirar, ouvindo o som da água?
O que antes era uma obrigação se torna um momento de autocuidado.

A rotina, muitas vezes repetitiva, se torna desgastante.
Mas e se a gente pudesse ver as tarefas como oportunidades de descobrir algo novo?
Tipo trazer um olhar de curiosidade para uma reunião que antes seria algo chato e desgastante.
Imagine você entrando na reunião se perguntando: “O que será que vou aprender de novo aqui hoje?”

Essas pequenas mudanças podem, num primeiro olhar, podem parecer bobas e simplórias, mas são, na verdade, é uma forma de dar espaço para a nossa criança interior, para que ela traga de volta o prazer puro, sem expectativas.
Aos poucos, ela vai nos relembrando que a vida pode ser leve e que nem tudo precisa ser “útil” e “produtivo”.

Lembra de quando você era criança e cada coisa, por menor que fosse, te encantava?
As pedras no caminho, as folhas secas, a sensação de caminhar descalço…
Para a criança, a vida, por si só, é um convite à brincadeira.

E não é sobre fugir das responsabilidades, mas sobre preencher os espaços entre elas com momentos de beleza, de pausa, de sorriso sincero.

Quando foi a última vez que você fez algo apenas pelo prazer de fazer?
Tipo dançar sozinha no quarto, ouvir uma música que te faz viajar e se imaginar como uma super cantora, ou rir alto de algo bobo?
Tenta se lembrar de qual foi a sensação naquele momento. Não deixou pelo menos algumas horas do seu dia mais leve?

Eu te convido a pensar em pequenas coisas que você pode mudar na forma de fazer, para trazer mais prazer.
Como diria meu pai: “De grão em grão, a galinha enche o papo.”
De pouquinho em pouquinho, você pode transformar a sua vida.

Aliás, é nisso que acredito quando se trata de transformações verdadeiras:
Pequenos passos.
Pequenos e verdadeiros passos.

E isso vai nos dando coragem para que as mudanças maiores possam acontecer.
Mudar o curso e optar pelo que traz paz e alegria exige um tipo de coragem profunda: a de ser fiel a si mesmo.

É como declarar para o mundo: “Eu mereço ser feliz e estar em paz.”
Isso pode ser algo tão simples quanto dizer não para um convite que você sente que não é para você, ou tão grandioso quanto mudar de carreira, de cidade, de vida.

Cada escolha que fazemos em direção ao que nos preenche é um passo para nos honrar.
É importante que nosso tempo seja sagrado e gasto em coisas que nutrem, não drenam.

No final das contas, nossa criança interior só quer uma coisa: brincar, descobrir, sentir alegria nas pequenas coisas.
Esse lado nosso, que nunca envelhece, que sempre está buscando um motivo para sorrir, para explorar o mundo com curiosidade.
É um presente que carregamos, muitas vezes, silenciosamente.
Mas que não podemos deixar morrer.

Com amor, Ella Taioli